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1 de dezembro de 2011

Doi-me a solidão...


Doi-me a solidão...

Perco-me nos caminhos e encontro-me nas encruzilhadas...abandono-me nas palavras e encontro-me nos pontos finais...dispo-me nos meus poemas para me encontrar nas entrelinhas...escrevo-me e fico sempre no outro lado de mim...tão perto e tão longe de ti...como o mar que afaga os meus olhos...e a tempestade que leva o meu corpo para o infinito onde te espero...para o vazio onde não te tenho...no labirinto onde não me encontro.
Sou um espaço em branco...um abraço frio do tempo...o resto que ficou esquecido entre as paredes nuas dos sonhos...esperando em silêncio pelo toque de uma mão...pelo anseio do desejo...pelo beijo que ficou entre a boca e o gesto...pelo colo ausente no vazio presente...rasgando a solidão de todas as noites...caminhando pelo escuro de todas as ruas...na estrada sem fim que prende os meus passos...nas rochas que me magoam o corpo...na solidão que me veste...no muro que me rouba a luz...no ocaso do meu olhar esculpido numa lágrima...gritando um lamento eterno e vão...sem resposta e sem mim...anoitecendo e amanhecendo...e eu vazia...e o tempo correndo e a vida esgotando-se...e eu sem nada e o meu corpo sem ti...e os meus dedos sem pele...e as minhas mãos tateando o vácuo...e os meus braços acorrentados...e os meus olhos chovendo lágrimas e o mar levando o meu lamento para tão longe da vida...para tão perto do nada.
É no escuro da minha alma...que os meus poemas dedilham um triste fado...que desagua no meu peito a tempestade de que sou feita...que me escrevo no silêncio de todos os gritos...que me dispo de mim para me vestir de ti...que me doiem os Dezembros do meu leito...os espinhos das minhas lembranças...os pesadelos onde repousam os meus fantasmas...os limbos onde a noite é mais noite...na mágoa que escorre do meu sono... pesadelo do meu sonho...no aconchego gelado do meu adormecer...na fria claridade do amanhecer.
Doi-me o silêncio...doiem-me as palavras...doi-me o tempo...doi-me a vida...doi-me a solidão.


Sou feita de demoras...e esperas no lado errado do tempo
E palavras sem sentido...e sonhos nefastos...e eu sem mim
E o meu rosto sem brilho...e o coração gritando um lamento
E a tela vazia...e a vida esquecida...e este deserto sem fim

Tenho nas mãos o cansaço...no corpo...insónias e muros
No meu olhar o mar salgado...noites brancas e lágrimas
Nos meus passos desalento...e tantos abismos escuros
Na boca tenho silêncios...do meu rosto escorrem mágoas

Sou um rosto sem voz...passos incertos...um lamento eterno
Sou a noite que me espera...uma ruga no tempo...o cansaço
Um encontro sem mim...um futuro onde já não me espero
Um passado magoado...perdido entre o tempo e o espaço

Sou um rio de águas paradas...feito de esperas tardias
De promessas e ilusões...de rosas e espinhos...de desalento
De chegadas e partidas...noites insones de solidão e agonias
De cais vazios...de corpos amordaçados...de tempo e vento'

RosaSolidão